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sábado, 8 de outubro de 2016

A Cegueira da Governação - Padre Antônio Vieira

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: 
vedes a ruína dos vossos Reinos,
vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, 
vedes as violências, 
vedes as opressões, 
vedes os tributos, 
vedes as pobrezas, vedes as fomes, 
vedes as guerras, vedes as mortes, 
vedes os cativeiros, 
vedes a assolação de tudo? 
Ou o vedes ou o não vedes. 
Se o vedes como o não remediais? 
E se o não remediais, como o vedes? 
Estais cegos.

Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar:
vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, 
vedes os destroços da Fé,
vedes o descaimento da Religião, 
vedes o desprezo das Leis Divinas, 
vedes o abuso dos costumes, 
vedes os pecados públicos, 
vedes os escândalos, 
vedes as simonias, 
vedes os sacrilégios, 
vedes a falta da doutrina sã, 
vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? 
Ou o vedes ou não o vedes. 
Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes?
Estais cegos. 

Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra:
vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, 
vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, 
vedes as desatenções do governo, 
vedes as injustiças, 
vedes os roubos, 
vedes os descaminhos, 
vedes os enredos, 
vedes as dilações, 
vedes os subornos, 
vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, 
vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? 
Ou o vedes ou o não vedes. 
Se o vedes, como o não remediais? 
E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Análise: Nesse texto, Padre Antônio Vieira critica abertamente as principais autoridades políticas e religiosas da época em que ele vivia, sempre terminando com os versos "Se o vedes, como o não remediais? / E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.", que evidenciam a indignação do Padre sobre todas as formas de opressão que são citadas. 

É bem importante destacar a segunda parte do texto, quando o Padre começa a falar de um cenário religioso. Sabendo que a literatura barroca ocorre em um contexto de reforma protestante, contrarreforma  e inquisição, e podemos identificar no texto vários elementos que se referem a esses fatos. Sempre aprendemos na escola que "o abuso dos costumes", "os escândalos", "os sacrilégios" e "as calamidades particulares da Igreja" levaram Lutero a iniciar a reforma protestante. Nesse texto de Padre Antônio Vieira, esses versos podem se referir tanto às práticas da Igreja Católica, quanto ao Protestantismo, já que o Padre sempre criticava em seus textos a influência Protestante nas colônias.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Trecho do Sermão de Santo Antônio aos Peixes (pág.1) -Padre Antônio Vieira



"Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!"


Análise: Padre Antônio Vieira, nesse trecho do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, utiliza relativamente de um simetria porque nota-se uma repetição de palavras e expressões, e há também um jogo de ideias, e um raciocínio de dedutível, como no trecho: "Ou porque o sal não salga...ou a terra não se deixa salgar.", que demonstra um raciocínio, e uma conclusão lógica.
O autor nesse texto fez uso da passagem do sal da terra e a luz do mundo, relacionou-a com o estado de corrupção que se encontra o mundo, e começou a se questionar, sobre o porquê de todo esse mal, sendo que o sal, são os pregadores, que tem a função de impedir a corrupção. Então ele passou a colocar uma ideia em cima da outra, que é uma das características de seus textos, continuando a indagar o motivo de toda essa corrupção, se é por causa do sal que não salga, ou seja, os pregadores, que pregam si mesmo, ou por causa da terra que não se deixa salgar, que são os ouvintes que não acolhem e preferem saciar os seus apetites, e ele em seu texto diz ainda outras ideias além dessas que coloquei, para tentar achar a causa de tudo isso. E no final do trecho ele indaga: " Não é tudo verdade isso? Ainda mal.", expressando seu sentimento em relação a tal fato. 
Portanto Padre Antônio Vieira nesse primeiro trecho do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, ele critica e questiona, sobre o motivo de toda essa corrupção, e utiliza de várias coisas, como já citei antes, para falar sobre esse tema que ainda é atual na sociedade de hoje.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Trecho do Sermão da Sexagésima (pág.6) - Padre Antônio Vieira

"Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da
parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos:
há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo;
há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos,
espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode
ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão
entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário
espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos,
que é o conhecimento."


Análise Eduardo: No presente trecho do Sermão da Sexagésima, pode-se observar que o assunto que está sendo tratado é a conversão da alma. É importante destacar também que, segundo o narrador, a conversão de uma alma consiste no ato do homem de se ver, como se fosse uma espécie de auto-avaliação no qual o homem se avalia e julga a si próprio. O narrador ainda continua dizendo que para tal coisa, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz.

Padre Antônio Vieira (1608-1697)




"O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive."

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, no Reino de Portugal. Veio ao Brasil quando tinha ainda sete anos de idade. Além de missionário, era escritor. Alguns de seus principais textos são os seus famosos sermões, como o Sermão da Sexagésima e o Sermão de Santo Antônio. Além disso, escreveu diversas cartas e profecias que estão compiladas atualmente como livros. É conhecido também pelas características dos textos que produzia, como o grande uso de figuras de linguagem, o conflito entre o corpo e a alma, e o conceptismo de suas obras, que é o jogo de ideias que busca seguir um raciocínio lógico, para que consiga ensinar e convencer o leitor. Por conta dessas e outras características, é considerado como um dos principais nomes da literatura barroca.

Seus sermões são conhecidos pelas críticas ao despotismo dos colonos portugueses, à influência do Protestantismo na colônia, aos pregadores que não cumpriam com seu papel de evangelizar, e até à Inquisição. O padre foi duramente perseguido, principalmente por defender os índios, condenando as agressões que eles sofreram como resultado da colonização, embora ele defendesse a evangelização dos povos nativos, por acreditar que isso traria a salvação a essas pessoas.

Antônio Vieira foi condenado pela Inquisição, em 1667, a não poder mais exercer seu ofício de pregar, e a ficar recluso no Santo Ofício. Mais tarde, o padre foi libertado e enviado para Roma, onde foi convidado para ser professor. Ele recusou, pois desejava retornar ao Brasil. Sua condenação foi revista, e o Papa o declara isento. Assim, ele compilou seus sermões e foi ao Brasil. Em nossas terras, o padre voltou a pregar pelo sertão. Mas, por problemas de saúde, foi obrigado a renunciar o cargo. Morreu em Salvador, Bahia em 1697.

"Há pessoas semelhantes à vela que se consomem para alumiar o caminho alheio"


Referências:

Cartas do Padre Antônio Vieira; Disponível em https://www.bbm.usp.br/node/63

Personagens da Cidade - Padre Antônio Vieira; Disponível em http://www.patrimonioslz.com.br/pagina164.htm

Padre Antônio Vieira; Disponível em http://www.soliteratura.com.br/barroco/barroco06.php